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Solidariedade, resistência e luta por uma Caixa pública e social. É o olhar no passado para mudar o presente

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“Não Toque em Meu Companheiro”, filme de Maria Augusta Ramos e coordenado pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), dialoga com a mobilização contra o retrocesso no passado e no presente, mirando-se na história de solidariedade a 110 trabalhadores  do banco que foram demitidos injustamente em Minas Gerais, no Paraná e São Paulo, durante o governo de Fernando Collor de Mello, em 1991. As demissões ocorreram em duas cidades da região Sudeste, Belo Horizonte e São Paulo, e em uma do Sul, Londrina.

É neste contexto que a história do documentário se desenvolve. Foi um sucesso sem precedentes a concorrida cerimônia de exibição em Belo Horizonte (MG), na noite desta quinta-feira (5). Entre empregados da Caixa e convidados, o público presente no Palácio das Artes foi de 130 pessoas. O local escolhido para a sessão de cinema especial é conhecido na capital mineira como o maior centro de produção, formação e difusão cultural de Minas Gerais e um dos maiores da América Latina. Nada mais apropriado para a ocasião.

Que tipo de filme é esse? “Não Toque em Meu Companheiro”, ao colocar a cinematografia protagonizada por empregados da Caixa no radar dos frequentadores de cinema, é um enredo robusto que possibilita diversas abordagens históricas, sociais, narrativas, técnicas e estéticas. O documentário, para a surpresa e emoção de quem compareceu à Sala Humberto Mauro, local da exibição, agradou tanto pela qualidade técnica quanto pela discussão que suscita. O tema em destaque é a defesa da Caixa 100% pública e focada no desenvolvimento do Brasil, apesar de também passear pela temática do mercado de trabalho.

Apesar de um universo de desalento em que a história entra, com demissões de trabalhadores sem uma razão específica, não poupando sequer bancárias em licença-maternidade, as reflexões sobre a solidariedade de empregados com os colegas demitidos, até a completa reintegração deles um ano depois e por via judicial, adquirem um tom universal. Um exemplo é a sequência do filme em que são mescladas cenas antigas de uma greve de bancários de instituições financeiras públicas em prol de seus direitos com pronunciamentos do então presidente Fernando Collor e manchetes de jornais da época.

O filme de Guta, como é conhecida a cineasta Maria Augusta Ramos, é fiel a um estilo que não utiliza grandes efeitos, trilhas sonoras ou entrevistas. A opção foi por mostrar a intimidade entre colegas de trabalho que conseguiram, com união e mobilização, reverter demissões claramente injustas.  Eis o fio condutor do documentário:  reencontros de amigos que recordam de como se organizaram para superar aquele momento difícil. O filme, aliás, é todo baseado nessas conversas e nessas trocas de experiências, sem qualquer tipo de roteirização, entre os empregados que foram demitidos.

O comparativo do passado com o presente, para mudar o futuro na perspectiva do Estado Democrático de Direito, é mostrado por Guta por meio de duas cenas com similaridades surpreendentes: o discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas, com a falácia de que o Brasil estava à beira do socialismo e de que a ideologia havia sido instaurada nas escolas e nos lares, e a fala de Collor dizendo que seu governo iria fazer um “saneamento moral” nas estatais. Qualquer semelhança entre ambos não é mera coincidência. Esse paralelo do Collor com Bolsonaro prova que o retrocesso instaurado no país no governo do “caçador de marajás” repete-se agora com o “perseguidor de parasitas”.

“Não Toque em Meu Companheiro” revela que foi exatamente a luta coletiva, no ambiente de trabalho da Caixa Econômica Federal, que possibilitou aos trabalhadores vencerem Collor. A mobilização, durante mais de um ano, abrangeu praticamente toda a categoria país afora e culminou na doação de uma pequena parte dos salários dos que estavam trabalhando nas unidades, com o propósito de amparar financeiramente os demitidos. Resultado: a mobilização denunciando as injustiças e a retirada de direitos seguiu, levando a que, em 1992, o então presidente Collor sofresse impeachment, ao mesmo tempo que todos os 110 trabalhadores foram reintegrados.

“A gente dá risada agora, mas na época a gente estava numa greve longa, de 21 dias, quando veio a bomba: Collor demite 110 trabalhadores em Belo Horizonte (30), Londrina (30) e São Paulo (50). Diante da notícia, as entidades se organizam e os empregados começam a se movimentar. Uma certeza permeava essa mobilização: acreditar na luta coletiva”, lembrou Jair Pedro Ferreira, presidente da Fenae. Ele esteve, na época, na lista dos demitidos.

Na capital mineira, além de Jair Ferreira, compareceram à exibição do filme os diretores Sérgio Takemoto (vice-presidente), Cardoso (Administração e Finanças) e Paulo Roberto Damasceno, vice-presidente do Conselho Deliberativo Nacional (CDN) da Fenae e presidente da Apcef/MG. A sessão também foi prestigiada por Eliane Brasil, presidente do Sindicato dos Bancários de BH e Região, e por Luiz Octávio Cuiabano, que presidia a associação mineira na época do fatídico episódio das 110 demissões.

Na cerimônia depois da exibição no Palácio das Artes, quando houve um pequeno debate a respeito do filme, Sérgio Takemoto fez um discurso que emocionou a plateia. Lembrou que “Não Toque em Meu Companheiro” retrata cenas de solidariedade e de esperança. “Por tudo que estamos passando hoje, considero necessário resgatar tanto a solidariedade e a esperança na Caixa e no Brasil”, ponderou.

Em 1991, quando a direção do banco anunciou a lista dos 110 trabalhadores, dos quais 50 apenas em São Paulo, Takemoto ficou encarregado de dar a notícia para a esposa, informando-a de que o nome dela constava na relação dos demitidos paulistas. Ela, tal como ele, é empregada da Caixa.

“Não Toque em Meu Companheiro” não é, de forma alguma, um filme isolado, uma produção “perdida” que vem dos porões do governo Collor. O documentário é parte de um verdadeiro movimento em prol do Estado Democrático de Direito, que tem produzido muita coisa, e que é recorrente em mobilizações e conquistas dos empregados da Caixa. Reacende ainda a esperança de que a união e a solidariedade são importantes ferramentas de resistência contra o retrocesso e de afirmação por uma Caixa pública, social e forte.

Na exibição de BH, considerada a mais comovente de todas as realizadas até agora (ocorreu uma em São Paulo, por ocasião do Inspira 2020, e outra em Londrina), a diretora Maria Augusta gravou um vídeo diretamente da Holanda, no qual agradece a participação do público e conta sobre a produção do documentário.

Depoimentos de alguns protagonistas

Foi significativo o número de empregados e convidados que compareceu à exibição do documentário de Guta na capital mineira. Uma das protagonistas do filme é Maria Carolina, de 33 anos, que entrou na Caixa em 2013. Presente ao Palácio das Artes, a bancária e diretora sem pasta do Seeb/BH lamentou o fato de ninguém da agência em que está lotada ter comparecido à sessão, classificada por ela de comovente e robusta.

“Acho importante que muita gente conheça a história da mobilização dos empregados na luta por seus direitos. A Caixa pública e social precisa ser reafirmada cada vez mais”, opinou. Maria Carolina é uma das jovens que deu depoimento para o documentário.

A bancária Lilian Mendes trabalha na Caixa desde 2004. Ela foi convidada para a exibição do filme e compareceu à sessão acompanhada do marido, que não é do banco. “É a segunda vez que assisto à obra da Maria Augusta, já que a primeira foi durante o Inspira 2020. Repito a dose em BH porque o documentário registra uma história que aponta na direção da importância da Caixa 100% pública, fundamental para o desenvolvimento do país”, pontua, com certa emoção na voz.

Hoje aposentada, embora na época estava entre os demitidos, Leda Nardelli falou da emoção que sentiu ao refazer as cenas vividas em 1991. É lamentável que os atuais empregados do banco estejam sem visão histórica e tenham dificuldades de perceber a importância para o desenvolvimento do Brasil da existência de um banco público do porte da Caixa”, reiterou.

Próximas exibições

Em breve “Não Toque em Meu Companheiro” passará a ser exibido nos vários estados do país em eventos promovidos pela Fenae e pelas Apcefs, e por streaming. E tem exibição confirmada agora em março em Toulouse, na França, durante a 32ª edição do festival Cinelatino – Reecontres de Toulouse.

É a saga de solidariedade dos empregados da Caixa em relação a colegas de trabalho traduzida em linguagem cinematográfica, para que cada vez mais a sociedade brasileira se entenda como tal.

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